Guia introdutório sobre IPOs e as ofertas públicas de ações esperadas para 2017

Tempo de leitura: 12 minutos

A maioria dos índices, previsões e especialistas mostra que a economia brasileira só voltará a melhorar a partir de 2018, e olhe lá. Ainda assim, várias empresas mostram interesse em abrir o capital em 2017 e realizar sua IPO.

Vamos por partes. IPO (ai-pí-ôu) é a sigla, em inglês, de Initial Public Offering (Oferta Pública Inicial). É quando a empresa oferece, pela primeira vez, suas ações a interessados.

Lá fora, as IPOs são festejadas, e algumas merecem corrida de investidores para garantir suas ações no lançamento. O maior exemplo disso foi em 2012, com o lançamento das ações do Facebook. Em contrapartida, a abertura do capital da Trivago foi um fracasso, gerando muito menos recursos que o esperado. Mas isso não afastou as empresas interessadas. Em 2017, Uber, Airbnb, Spotify, Snapchat, Dropbox, entre outras, vão captar recursos nas bolsas pelo mundo afora.

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No Brasil, é difícil haver esse alvoroço com relação a abertura de capital de alguma empresa. As grandes e conhecidas, se ainda não tem seus papéis negociados, é porque não veem motivo para isso e, tão cedo, não vão ter. As menores sentem dificuldades de se adequar às regras da Bolsa, e podem achar que o processo não compensa.

Sim, pois um dos grandes entraves à popularização da bolsa de valores como meio de captar recursos é, paradoxalmente, o alto custo do processo. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) é extremamente zelosa com seus investidores. Exige mundos e fundos de garantias, contas mais do que em dia, comprovante disso e daquilo. O lado bom é que o processo afasta todos os aventureiros e mal-intencionados. O lado ruim é que alguns empreendedores sérios também perdem a opção de ver seu negócio crescer.

No lado do investidor, existem alguns fundos e especialistas que desaconselham investir em IPOs. Razões para tal, segundo eles, não faltam. A principal é a falta de um histórico de resultados e dividendos. É difícil analisar os números de uma ação antes de ela ser lançada. É necessário apoiar-se apenas na análise de dados da própria empresa. É um trabalho que deve fazer parte, de qualquer forma, de todas as análises de ações.

Outro motivo para o interesse ainda baixo na abertura de capitais é a baixa poupança interna do Brasil. Para uma IPO “bombar”, atrair muitos interessados, é necessário que estrangeiros participem. E, em nosso momento de absoluta incerteza política, parece pouco provável que o pessoal do lado de lá se interesse. Mesmo que a incerteza política seja muito maior nas terras de Tio Sam, pelo menos é o mal no quintal que já conhecem.

Existe também a possibilidade de que uma ação resultante de IPO tenha pouca liquidez, mas nesse caso a culpa é mais de quem conduziu o processo e gerou pouco interesse para o lançamento, e, uma vez que a ação saiu do radar, demora para ser percebida pelos interessados de novo.

Porém, é uma chance única de conseguir ações de determinada empresa por um valor baixo. Além disso, ao investir em IPOs, você tem certeza de que o dinheiro todo irá para a empresa, possibilitando novos investimentos e fazendo com que ela se valorize. E, com a valorização, as ações tendem a subir.

Mas se não existem dados pregressos, o que deve analisar antes de decidir se devo ou não investir em uma IPO?

Prospecto é o documento oficial que a empresa deve apresentar para os interessados em adquirir suas ações. Ter acesso a ele é a coisa mais fácil que existe: ele é publicado no site da BM&FBovespa, no site da empresa que vai fazer a IPO e em portais especializados.

Nele, você encontra tudo: o que a empresa faz, sua atual condição financeira, o que ela pretende fazer com seu dinheiro e assim por diante.

Como qualquer documento oficial, existem partes e partes. Como o prospecto é, via de regra, uma grande propaganda da empresa, como o objetivo é fazer com que você se interesse em fazer parte daquilo através da compra de ações, nada é escrito em “legalês” – a não ser a parte obrigatória da CVM, que geralmente fica nas primeiras páginas e em letra miúda. Isso você pode pular.

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O que avaliar em um prospecto

1 – Apresentação/Sumário da companhia: Geralmente faz parte da introdução. Aqui, você encontra um retrato fiel da empresa. O que ela faz, onde se encontra, quais seus pontos fortes e fracos, onde ela se destaca da concorrência, seus ativos e passivos.

2 – Fatores de risco: É a parte em que a empresa encarna a piada do amigo da onça: “O que você faria se estivesse no mato e visse uma onça?” “Daria um tiro nela com minha espingarda” “E se não estivesse armado?” “Assustaria o bicho fazendo muito barulho, batendo panela” “E se não tivesse nada com que fazer barulho?” “Subiria na árvore mais próxima” “E se não houvesse árvores por perto?” “Escuta, você é meu amigo, ou amigo da onça?” Nessa parte, você lê tudo o que pode dar errado com a empresa, conjunturas econômicas nacionais e internacionais, concorrência, entre outros fatores.

3 – Sumário/Resumo da Oferta/Oferta: Leia na diagonal a parte do nome oficial da empresa ou controladora, bancos/agentes financeiros parceiros, anúncios publicados na CVM. Vá direto para a parte de quantas ações serão ofertadas, por quanto, quanto isso significa do capital total da empresa, se há a possibilidade de lançarem lotes complementares devido a demanda etc. Nesse trecho, você também encontra as instruções para a reserva, período no qual você pode pré-adquirir suas ações, antes do pregão, ao preço pedido pela empresa. No dia do lançamento oficial, tal preço pode subir ou cair, mas pelo menos você não corre o risco de ficar sem as suas. Mas cuidado: é comum a empresa estabelecer um valor mínimo e um valor máximo para as reservas. Leia a parte da reserva com atenção para saber como proceder. E no resumo da oferta você também encontra uma das partes favoritas aqui do GuiaInvest: a política de dividendos da empresa, onde você saberá quanto a empresa pretende dividir do lucro, e como fará essa divisão.

4 – Destinação dos recursos: É aí que você descobre o que a empresa pretende fazer com o seu dinheiro. Via de regra, “investir nos segmentos tal e tal”, “modernizar as unidades X e Y”, “adquirir outras empresas do setor” são opções que contam a favor daquela companhia. “Pagar uma parte da dívida maldita que está há dez anos [beeeeep] com a empresa”, nem tanto.

5 – Balanço: A saúde financeira da empresa estará detalhada aqui. Você saberá quanto ela tem em caixa, qual seu valor, o que tem para pagar e receber. As empresas que querem ser listadas na Bolsa são obrigadas a publicar seus resultados trimestrais no prospecto e sua relação com período(s) anterior(es), para garantir lisura. Assim, as empresas não poderão acumular vendas em um mês, por exemplo, para maquiar as receitas.

As principais IPOs esperadas para 2017

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Agora que você já sabe o que procurar nos prospectos, vamos ver algumas das empresas que podem estrear na bolsa esse ano. Trata-se de um grupo muito diverso, com empresas conhecidas e outras nem tanto. Alguns setores devem ter concorrentes brigando na Bovespa. Outras empresas têm negócios absolutamente únicos em nossa bolsa. Acompanhe:

IPOs confirmadas:

Hermes Pardini – Empresa de diagnóstico e outros serviços médicos. Hoje é forte em Minas Gerais, mas conta com parceiros por todo o Brasil. Em vários locais de seu site você encontra menções a um agressivo plano de expansão.

Tenda – Construtora e incorporadora muito atuante no programa Minha Casa Minha Vida e em outros empreendimentos para população de média e baixa renda. Atua em Pernambuco, Bahia, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul.  O mercado imobiliário parece estar com excesso de oferta no momento, mas sempre tem gente querendo casa. Principalmente se for a primeira casa.

Sanepar – Empresa de água e esgoto do Paraná, presente em 345 municípios do estado e em um em Santa Catarina. É destaque por sua operação eficiente quando comparada com outras empresas do setor e gestão ambiental.

Log Commercial – Parte do grupo MRV, dedica-se a construção e aluguel de espaços comerciais, de galpões a shopping centers. O sucesso da empresa está ligado intimamente ao aquecimento da economia. Mais empresas sendo abertas e investidas, mais interesse por galpões e outras estruturas.

Unidas – Com o sucesso da Localiza na Bolsa, suas concorrentes também se interessaram em captar recursos através de ações. A Unidas é uma delas, assim como a…

Movida – Que está em um processo agressivo de expansão. O tamanho do Brasil ajuda a aumentar o interesse em empresas voltadas a logística, como a Unidas e a Movida. Pode-se gerar uma situação como Coca-Cola vs Pepsi.

IPOs muito prováveis

Tudo Azul – Programa de fidelidade da companhia aérea. A Azul já tentou e desistiu pelo menos três vezes de entrar na Bolsa, tanto de São Paulo como de Nova Iorque. Lançar papéis de seu programa de fidelidade, com aproximadamente 12 milhões de pessoas cadastradas, pode ser uma maneira de comer pelas beiradas, e captar os recursos necessários.

Cinesystem – Não é de hoje que o velho cinema se reinventa. Com transmissões ao vivo de teatro, ópera e esportes, relançamento de clássicos, apoio a produções nacionais e outros, o cinema dá várias opções para que todos nos sentemos no escuro com a pipoquinha. Mas isso custa dinheiro. Em 2016, a Cinesystem, que possui mais de 140 salas pelo Brasil, começou a conversar com a CVM. Em 2017, é provável que a conversa evolua para a sua IPO.

Rumores do mercado

Caixa Seguridades – Não são poucos os rumores vindos da Caixa. Um deles dá conta da abertura do capital de sua unidade de seguros. Seria um grande negócio, pois a empresa deixaria de depender do dinheiro do governo – algo que, sabemos, está complicado – para concorrer com as gigantes do mercado.

Carrefour – Não é de hoje que existem vários rumores sobre o Carrefour no Brasil. Venda, sair do país, reorganização. A abertura do capital ao mercado pode dar ao gigante do varejo o fôlego que deseja para voltar a crescer e prosperar.

NetShoes – Uma das maiores empresas de comércio eletrônico no país começa a diversificar com outras marcas que não atuam no mercado esportivo. É um mercado em franco crescimento e a NetShoes está muito bem posicionada.

Biotoscana – A empresa de equipamentos médicos passa por uma série de aquisições e fusões, e a ideia de se abrir o mercado pode ter sido engavetada. Para acompanhar, mas sem esperar muitas novidades.

XP Investimentos – Assessoria de Investimentos há mais de 15 anos no mercado, pode abrir o capital e ser mais agressiva no mercado, antecipando uma possível melhora na economia.

 

Eu falei aqui sobre 13 possibilidades de IPO, mas a alta diretoria da BM&FBovespa espera entre 20 e 25 no ano ano. Para se manter informado sobre esses e outras novidades na Bovespa, fique de olho nesta página do site da Bolsa e nos sites das próprias empresas.

Investir em IPOs, assim, pode ser uma boa opção para quem quer sair na frente. Só lembre-se de que as regras básicas são as mesmas de qualquer ação: informe-se sobre a empresa, o que ela faz, e de sua situação financeira. Mesmo quem está em processo de abertura de capital precisa ter em seu site uma área de RI (relações com investidores). Leia tudo o que estiver disponível lá, principalmente o prospecto oficial. E, se achar que compensa, seja um dos primeiros a obter uma parte de uma nova empresa na bolsa.

Alerto, porém, que não estou recomendando a compra das empresas que listei. Minha intenção foi apenas apresentar novidades e tendências no mercado. A lição de casa fica por sua conta, combinado?

Bons investimentos!

  • Lady Slide

    O artigo é uma interessante introdução. Mas ainda tenho dúvidas. O IPO que me interessou está lançando apenas ações ordinárias, mas estas não pagam dividendos, certo? Ainda valeria investir em IPO de ações ordinárias dessas empresas? obrigada

    • Wilson Pires – GuiaInvest

      Lady, tudo bem? Ações ON também pagam dividendos caso a empresa obtenha lucros, o que acontece é que ações PN tem preferência no recebimento e recebem um valor um pouco maior. Abraço!

      • Lady Slide

        Obrigada pela resposta!

        • Wilson Pires – GuiaInvest

          De nada! 😉

  • Leninha Cabral

    OMG! Estava esperando algo assim para ler. Não sabia nem onde eram divulgados os IPOs, muito obrigada pelo artigo!