O poder dos juros compostos e os ensinamentos de Martinho da Vila

Tempo de leitura: 11 minutos

Albert Einstein o considerava uma das grandes forças do universo. Ele é a base do segredo de viver de renda passiva. É o terror de alguns bancos, que o evitam de todo modo em alguns tipos de investimento. E, ainda assim, é um grande desconhecido. Ignorado na hora de investir, planejar. Se você ainda não sabe de “quem” estou falando, eu revelo: é dos juros compostos!

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A forma mais simples de explicar esse conceito é dizendo que juro composto é juro sobre juro. Se quisermos complicar um pouco mais, podemos usar a fórmula básica:

Juros compostos é a taxa de juro “i” mais 1, elevada ao tempo de aplicação “t”. Ou (1+i)t .

Assim, para calcular quanto você ganhará em juros compostos em determinada aplicação, basta multiplicar o Capital “C” pela fórmula acima.

M (montante final) = C (1+i)t

Dizem os especialistas que fórmulas matemáticas afastam os leitores. Essa é a única do artigo, prometo.

Antes de continuar, vamos deixar uma coisa muito clara: a chave para aumentar seu patrimônio via juros compostos está naquele pequeno “t” da fórmula. Sim, é preciso tempo. Bastante tempo. Sim, existem investimentos e “investimentos” que prometem ganhos maiores. Mas, junto com ganhos prometidos, também vêm muitos riscos.

Um investimento baseado em juros compostos pode oferecer menos se você comparar os ganhos de um mês. Mas aqui, você não pode pensar em um mês. O seu pensamento aqui deve ser outro, como explica…

“Já sei, Warren Buffet de novo!”, você pode pensar.

Não, Martinho da Vila!

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Devagarinho

É que a gente chega lá

Se você não acredita,

Você pode tropeçar

E tropeçando

O seu dedo se arrebenta

Com certeza não aguenta

E vai te xingar

Sim, fazer um patrimônio de respeito com juros compostos demora. Mas, como sempre digo, não há atalhos.

Vou explicar melhor falando de um conto conhecido.

Ibn Khallikan foi um jurista egípcio do século XIII. Porém, seu grande legado para a História foi um pequeno conto matemático, que nada tem a ver com as leis. Até onde se sabe, ele foi a primeira pessoa a registar o conto do arroz (ou trigo, dependendo da versão) e do tabuleiro de xadrez.

A história quase todo mundo conhece. Havia um rei que estava encantado com uma nova invenção, o jogo de xadrez. Então, convidou o inventor e lhe ofereceu qualquer recompensa que quisesse pela grande invenção. Em algumas versões, o sujeito não sabia o que ia acontecer, em outras, ele fez uma pegadinha com o rei de propósito.

De qualquer forma, ele pediu como recompensa um pouco de arroz, calculado da seguinte maneira: na primeira casa do tabuleiro de xadrez seria colocado um grão de arroz, na segunda dois, na terceira quatro, sempre dobrando a quantidade até atingir a 64ª casa. O rei elogiou o inventor por sua modéstia, até perceber onde tinha se metido…

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Vamos tentar algumas contas. Uma pesquisa rápida no Google diz que um grão de arroz pesa em média 15 miligramas, mas quem tem balança em casa pode conferir e me passar números mais precisos. Assim, ao chegar na última casa, somando todos os grãos, haveria 276 milhões, 701 mil e 161 toneladas de arroz.

Segundo o setor de pesquisas do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, os três maiores produtores de arroz do mundo têm a seguinte produção projetada para 2016:

  • China – 144.560.000 toneladas.
  • Índia – 104.800.000 toneladas.
  • Indonésia – 35.560.000 toneladas.

Total da produção anual dos três maiores produtores mundiais: 284.920.000 de toneladas. Total do tabuleiro: 276.701.000 de toneladas.

Agora, vamos mudar um pouco essa história: em vez de um grão de arroz, vamos usar cinco reais. E nenhum investimento sério pode prometer que dobra seu investimento periodicamente. Nem aumentar em 50%. Nem 20%. Vamos colocar um aumento de 1%; você pode conseguir facilmente um rendimento maior que esse. E, em vez de casas no tabuleiro, meses. Após dez meses, você teria R$ 5,52 e uns quebrados. Nada impressionante, mas note a diferença: se aplicasse 10% nos R$ 5, você teria ganhado cinquenta centavos. Ao usar juros compostos, você já tem dois centavos a mais!

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Mas vamos continuar…

Após 32 meses, a metade do tempo do investimento, são R$ 6,87. Após os 64 meses, você tem R$ 9,45 – praticamente o dobro do investimento. Agora, algo interessante: Você demorou 64 meses para ganhar R$ 4,45 reais. Se não fizer mais nenhum aporte, demorará apenas mais 36 meses para ganhar aproximadamente o mesmo valor. E assim sucessivamente. E nosso modelo não conta com nenhum aporte extra. E, se você conseguir uma taxa um pouco maior, a mágica dos juros compostos é ainda mais evidente: com um juro composto de 1,2% você teria R$ 5,63 após três meses, em vez de R$ 5,52. E, na vida real, em 64 meses você provavelmente conseguiria economizar mais um real ou dois para investir.

Você já deve ter visto algumas fórmulas de riqueza na internet e redes sociais baseadas no mesmo princípio: invista R$ 10 reais no primeiro mês e vá dobrando no período de um ano.

Fácil, quem não tem R$ 10 para investir em janeiro? O problema é que, em dezembro, o valor a ser investido será de R$ 20.480. Se você tiver todo esse dinheiro disponível (lembre que em novembro são R$ 10.200 para investir), e quiser experimentar essa forma de investimento, pelo menos inverta. Comece investindo os 20 mil e tanto em janeiro, para aproveitar um ano de juros da instituição bancária, e termine dezembro investindo os R$ 10, porque você vai gastar com festas de fim de ano, férias, IPTU e tudo o mais.

A fórmula não secreta para se beneficiar dos  juros compostos

Para aproveitar tudo o que os juros compostos podem oferecer a você, há uma fórmula básica. Sim, eu disse que só haveria uma fórmula no texto, mas essa aqui todo mundo conhece, ao menos em teoria: você deve gastar menos do que recebe. Já tratei desse assunto aqui.

Discipline-se para, esse mês, guardar ao menos 10% do que recebe. Conforme seu controle for melhorando e se acostumar a lidar com o dinheiro de forma eficaz, vá aumentando até chegar a 30%.

As pessoas que têm dinheiro só o têm porque seguem essa regra simples. De outra maneira, não teríamos tantos relatos de ganhadores de loteria que perderam tudo e herdeiros que desmantelaram antigos impérios empresariais. De fato, uma empresa especialista em educação financeira norte-americana apontou que 70% dos ganhadores de prêmios lotéricos perdem tudo.

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Não importa de onde vem sua renda, se ativa ou passiva, se você ganha o mesmo todo mês ou tem faturamento sazonal. Gaste menos do que recebe. Do contrário, sofrerá com os juros do banco e do cartão de crédito, em vez de lucrar com eles.

Fique rico devagar

Quanto antes você começar a viver com menos de 100% de seu salário e começar a investir, mais poderá se beneficiar de seu trabalho. Mas não quer dizer que você não pode começar agora.

Veja o caso do norte-americano J.D Roth. Afundado em dívidas, ele começou um blog (getrichslowly.org) com conselhos práticos sobre administração financeira e as vantagens dos juros compostos.

Seguindo os conselhos dele próprio, em sete anos pagou as dívidas, abandonou seu emprego para viver de escrever e publicou o livro Your Money: The Missing Manual (Seu Dinheiro: O Manual Perdido). Veja o que ele tem a dizer para quem quer, devagar e sempre, se beneficiar dos juros compostos.

1 – Convença-se de que dinheiro não se poupa com matemática, mas com a cabeça

Voltando à regra acima, todos sabem que é preciso gastar menos do que se ganha. O difícil é controlar emoções e desejos. Dica: evite comprar algo sem uma lista. Ao fazer uma lista, você reflete, pensa. Comprar por impulso é o que o próprio nome diz.

2 – Tenha objetivos

Quanto você quer poupar naquele mês? Qual é seu objetivo para o final do ano? Coloque tudo no papel e desafie-se a conseguir. Para facilitar, divida objetivos maiores em metas mensais ou semanais.

3 – Priorize a economia

Entrou o salário? Primeiro, separe uma parte para investir. O resto deve ser destinado à água, luz, condomínio, supermercado. Se você não fizer essa inversão, sempre haverá uma desculpa para não investir.

4 –  Tenha em mente que qualquer valor importa

No dia a dia é importante economizar em pequenos luxos. Evite tomar um cafezinho no shopping, reduza a quantidade de vezes que você pede comida, busque produtos em promoção no supermercado. Mas você deve pensar também nos valores maiores. Se você passa mais de 90% de tempo na cidade, para que precisa de um carro com motor 1.8 ou maior? Seja racional também em suas grandes compras.

5 – Entenda que é uma questão de hábito

Nada de pensar “vou economizar mesmo nesses meses para sair do aperto”. Se você quiser ter dinheiro para investir, viver mais frugalmente deve ser um hábito que se deve ser cultivado a maior parte de sua vida.

6 – Não espere pelas condições perfeitas

Como falei, a melhor forma de se beneficiar de juros compostos é começar a investir agora, mesmo que seja pouco. Dê o primeiro passo!

7 – Faça o que funciona para você

Existem diversas ferramentas que o auxiliam a cuidar de seu dinheiro, muitos especialistas, aplicativos a torto e a direito. Teste, experimente, veja com o que você se sente confortável. O que serve para os outros pode não necessariamente servir para você.

8 – Saiba que você pode ter qualquer coisa que quiser, mas não tudo que quiser

Essa regra pode parecer que contradiz a número 4, mas permita-me explicar. Quer ter seu carro com motorzão? Pode. Quer tomar seu café gourmet todo dia? Pode. Mas, para cada uma dessas decisões, você terá que abrir mão de algo. Lembre que seu dinheiro é finito. Conseguiu encontrar uma maneira de pagar por um carrão depois de separar o dinheiro para investir e pagar as contas? Parabéns! Desde que você não se descontrole financeiramente e esteja pronto a abrir mão de muita coisa, vá em frente. Esse equilíbrio entre guardar e gastar é a chave da felicidade financeira.

9 – Lembre que ninguém se importa mais com seu dinheiro do que você mesmo

Aquele primo alardeia as vantagens de revender perfumes, seu pai diz que nada supera comprar terra, sua sogra quer lhe convencer a investir na ideia do irmão dela que, “ó, vai ser o próximo Facebook”, o gerente do banco oferece outro título de capitalização. Cada uma dessas pessoas tem seus próprios interesses ou, no mínimo, não sabe o que funciona para o seu estilo de investimento. Estude, informe-se, veja os prós e os contras de cada opção e tome uma decisão baseada no que você quer e precisa – e não no que os outros dizem ser o melhor para você.

10 – Faça investimentos regulares

Quando Chico Xavier perguntou a seu mentor, Emmanuel, o que precisava para assumir a sua missão, a resposta foi direta: “Disciplina, disciplina, disciplina”. A mesma lição vale para quase tudo na vida. Poupar é a prioridade. Muitas vezes você vai ser tentado a usar aquele dinheiro para outras coisas. Resista. É o seu futuro que está em jogo.

11 – Seja paciente

Esqueça que você tem aquele dinheiro guardado. Juros compostos só funcionam se você não mexer naquela conta durante determinado tempo. De novo, peço que você leia o artigo O Segredo Não tão Secreto Sobre o Caminho para a Liberdade, em que falo sobre a importância de separar seu dinheiro em vários investimentos, pois assim você reduz a possibilidade de tocar no investimento a longo prazo focado.

13 – Tenha a consciência de que é mais importante ser feliz do que ser rico

Não fique obcecado com o dinheiro. Como diz o ditado, ele não traz felicidade. J.D Roth lembra que a verdadeira riqueza são bons relacionamentos, boa saúde e um autodesenvolvimento contínuo.

Então, não se esqueça: juros compostos são uma força poderosíssima para aumentar seu patrimônio, desde que você respeite seu ritmo. Cante comigo:

É devagar

É devagar

É devagar, é devagar

Devagarinho.

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  • Mark Politico

    ..Gostei do texto, como saber se, de fato, as instituições pagam os juros compostos em nossos investimentos…? as vezes me pegunto isso?

    Parabéns..

    • Wilson Pires – GuiaInvest

      Mark, independente do investimento que fizer, é necessário sempre um acompanhamento, afinal, é seu dinheiro que está envolvido. Abraço!