Como ensinar o valor do dinheiro às crianças

Tempo de leitura: 12 minutos

Era uma vez…

Era uma vez quem?

— O Homem-Aranha.

— A Elsa de Frozen.

— O Trevor do GTA.

— O Chase da Patrulha Canina.

— O Whindersson do YouTube.

— A Mônica.

— Cristiano Ronaldo.

— Twilight Sparkle.

— Um zumbi do Walking Dead.

Junte um monte de crianças e provavelmente você terá um diálogo a partir desses personagens. Hoje, mais do que nunca, não há um grupo monolítico de crianças. Elas aprendem desde muito cedo que podem exercer seus gostos, que são diferentes dos de outras crianças. Robert Kiyosaki, autor do best-seller Pai Rico, Pai Pobre, reconhece isso no livro Filho Rico, Filho Vencedor.

141212-kidsmoney-stock

 

Existem muitas inteligências, muitos talentos que podem e devem ser explorados. E quanto mais cedo você identificar a individualidade de uma criança e estimulá-la, mostrar como ela pode ganhar a vida dessa maneira, melhor.

Mas vamos lá.

Era uma vez três crianças: a Lu, o Fê e o Maximiliano. A história é minha, tá bom? Os três estão jogando um grande jogo de tabuleiro, desses das fábulas que ganham vida. Já disse que as crianças são diferentes umas das outras. Então, cada criança tem um dado diferente, mas se souber como usá-lo, pode muito bem ganhar o jogo – se esse for o objetivo. Alguma criança pode querer chegar em segundo de forma confortável, sem se esforçar tanto, e isso é válido, também.

Antes do jogo começar, porém, as três crianças precisam aprender as regras.

Isso é o que Kiyosaki chama de dar poder e confiança para as crianças. Todas elas têm uma capacidade incrível de aprender e de se desenvolver. Mas nem todas da mesma forma, nem na mesma velocidade. Você não pode dizer que o Cristiano Ronaldo é um fracasso porque ele não conseguiria administrar uma empresa.

Todas as crianças têm potenciais únicos que devem ser desenvolvidos. Da mesma forma, possuem a mesma capacidade de interiorizar conceitos errados e prejudiciais. É tudo uma questão de estimular os jovens a desenvolver suas habilidades naturais e aprender coisas úteis.

Da mesma forma que podemos desenvolver músculos, treinar para correr melhor, aprimorar as habilidades em um instrumento musical, é possível treinar uma criança – aliás, qualquer pessoa – para ser melhor em lidar com o dinheiro. Novamente, no seu próprio ritmo, é claro.

Então, é importante identificar os pontos fortes de cada criança desde cedo. Estamos em uma época em que as oportunidades são infinitas – e nem todas exigem que uma criança se forme em uma boa universidade.

Depois que deixar a criança desenvolver suas habilidades únicas, é hora de falar sobre dinheiro. De novo, não há uma idade específica. Espere ela começar a fazer perguntas sobre por que você trabalha, como funciona o dinheiro, o que faz um banco, por que ela não pode ganhar o mais novo super-hiper brinquedo que passa na televisão toda hora e assim por diante. Quando a criança estiver pronta, ensine.

A primeira coisa a ser ensinada a uma criança sobre dinheiro

A primeira coisa que deve ser ensinada, de acordo com Kiyosaki, é a ter a mentalidade correta. Troque o “não posso comprar isso” pelo “como posso comprar isso?” Desafie seu QI financeiro a encontrar uma saída, e os pequenos aprenderão a fazer o mesmo desde cedo. O que eles podem fazer para ganhar cinquenta centavos, um real? Enxugar a louça? Arrumar o quarto? Ajudar um coleguinha que vai mal na escola?

Agora que a Lu,o Fê e o Maximiliano sabem as regras e vão treinar seus pensamentos desde cedo para encontrar maneiras de ganhar dinheiro usando suas habilidades, podem lançar os dados.

A Lu cai em uma casa cheia de gráficos, livros e computadores. É a casa do Planejamento. Aqui, o autor explica que seu emprego é o lugar, no máximo, onde você ganha dinheiro. Mas você faz dinheiro mesmo em casa, através de projetos, investimentos, aplicações. Ou, como falei antes, através de sua renda passiva.

14669-mom-daughter-woman-girl-child-money-management-finances-bills-paperwork-talk-wide.1200w.tn

Recomendo que você ensine a criança sobre isso desde cedo, bem como fez o Gerson, pai do investidor mais jovem do Brasil. Poupe, não para viajar ou para comprar um carro, poupe para que seu dinheiro faça dinheiro. A partir de agora, a Lu vai poupar um ponto cada vez que jogar. Tirou cinco, anda quatro casas, e vai anotando quantos pontos tem guardado para usá-los quando for melhor.

Agora o Fê joga e cai em uma casa defendida por três soldados com armaduras e escudos. Para derrotá-los, precisa de três armas ou planos, que usará em toda a sua vida: um plano de aprendizagem, um plano de carreira, um plano financeiro.

Aprendizagem, a essa altura ele já deve saber. Como ele aprende melhor? Apenas uma parcela da população aprende sentada em uma cadeira, ouvindo outra pessoa falar. Tem quem aprenda escrevendo, vendo vídeos etc. O plano de carreira é aquele que mostra como a pessoa irá ganhar dinheiro para construir patrimônio e renda passiva. E o plano financeiro é o que ele irá fazer com esse dinheiro.

— Ah, mas é impossível planejar a vida desse jeito.

Não, é algo bem possível. Se você é um leitor assíduo do blog, já conheceu ferramentas e estratégias para economizar, gerenciar seu dinheiro, evitar erros ao investir etc.

Com os outros aspectos de sua vida, é o mesmo. Aprendizado, por exemplo. Você pode se comprometer a ler “x” páginas úteis à sua carreira por dia. Ainda sobre carreira, você pode colocar na sua agenda a obrigatoriedade de fazer networking com uma pessoa diferente por semana. Você pode não ter tido essas armas que ajudam no sucesso profissional quando criança, mas não há motivos para não desenvolvê-las agora.

É a vez do Maximiliano jogar. Ele cai em uma casa com areia movediça. Aí, percebe que não é areia, é a parte de cima de um relógio.

É a casa que diz que, hoje em dia, se você não se mantiver aplicando as três armas vencedoras acima, você vai ter dificuldades. E não só financeiras. No mundo dinâmico em que vivemos, é preciso estar sempre revendo e trabalhando em nossas três armas. O plano financeiro, de carreira e de aprendizagem.

Kiyosaki defende que as pessoas precisam estar preparadas para ter várias carreiras em suas vidas, o que significa estar sempre ajustando os planos, adaptando-se, aprendendo coisas novas.

Agora, a Lu avança no tabuleiro e cai em uma das casas mais controversas do livro de Kiyosaki. Ali está a mãe da Lu, insistindo para que ela estude mais, que tenha boas notas e reforçando que ir bem no Enem e no vestibular são a chave de um bom futuro. A outra pessoa na casa é o gerente do banco. E ele nunca vai pedir para olhar seu boletim.

Uma verdade chocante, dita assim. Ele vai, no máximo, olhar seu saldo bancário para decidir se lhe empresta dinheiro ou não e/ou qual aplicação vai sugerir a você. Mas não vai olhar seu boletim, nem quer saber a universidade que você cursou.

Vivemos em um mundo com dois tipos de adolescentes

Tem o estudante que vara a noite estudando e corre para passar por baixo da porta do Enem antes que perca o horário e aquele que filma tudo, posta no YouTube e ganha dinheiro com isso. Alguns, muito dinheiro. E aí?

O autor reforça bastante o fato de que a educação é importante, que frequentar boas instituições de ensino ainda oferece muitas vantagens para os jovens, mas reconhece que não é o único caminho nem indispensável.

O extrato de banco, o check-up médico regular, os momentos felizes descritos no diário ou no blog são os boletins que importam para a Lu na vida adulta. Aquele 4,5 em Química ficou para trás. Então, é preciso ensinar as crianças a fazerem seu próprio extrato de banco. O extrato que o autor recomenda ensinar as crianças é bem simples:

O que muda é a definição que ele dá a esses itens. Bens não são tudo o que você possui. Um bem, para Kiyosaki, é o que o ajuda a fazer dinheiro, o que aumenta sua receita. E passivo é o que você possui, mas que contribui para a despesa. A câmera com a qual o moleque faz os vídeos para a Internet, então, é um bem. O cachorro, uma despesa. Ao ficarmos mais velhos, é comum colocarmos carros e casas em “bens” mas, para o autor, são passivos. Já uma carteira de ações boas pagadoras de dividendo é um ótimo bem. Ele simplifica: o que coloca dinheiro no seu bolso é bem. O que tira, é passivo.

Simples, fácil de ensinar para as crianças, mas algo que muitos adultos não aplicam. Por isso tem tanta gente que continua em empregos de que não gostam. Não possuem bens que geram receita, e dependem exclusivamente de seus salários.

A próxima casa que as crianças enfrentam no jogo das finanças é aquela que tem um cofre de porquinho. Grande, rosadão, sorridente, com a abertura aguardando o tilintar de moedinhas.

E esse é um grande inimigo, segundo o autor

Para ele, apenas poupar é um erro. Os juros são baixos e nem sempre acompanham a inflação real. Ao contrário, as pessoas, mesmo na tenra idade, devem investir.

kids-and-money-photo.jpg

 

E esse é o período para correr alguns riscos. Mesmo que faça um investimento ruim, você terá décadas para se recuperar. O autor sugere ensinar às crianças uma versão da regra dos 70%, que apresentei aqui.

Compre três porquinhos de cores diferentes, um com dinheiro para doar para quem precisa, outro para emergências, outro para investimentos.

Mas que investimentos uma criança pode fazer? Coleções, como selos, carrinhos, moedas, autógrafos. Sementes para plantar no quintal e vender ervas e vegetais para vizinhos e parentes. Figurinhas, para vender aquelas que completam os álbuns dos amiguinhos. Com a sua ajuda, a criança pode comprar ações – e é importante que ela mexa no home broker, que acompanhe as suas dicas sobre onde conseguir informações e o que procurar nelas. Isso lhes dá mais confiança e segurança. E muitas outras possibilidades. De novo, aprenda com o Gerson.

As crianças chegam em outra casa do jogo e encontram:

— um zumbi do “Álquim Déd”?

Não, uma mala preta escrita “Dívida”. E aqui, o autor faz outra afirmação que não vemos com frequência: “Se ter apenas um porquinho é ruim, existe também o débito bom.” Aquele que vira investimento.

O autor dá o exemplo de pegar dinheiro do banco a 6% de juro e emprestar esse dinheiro para alguém a 10%. Ou usá-lo em algo que renda mais do que os 6%, digamos, comprar uma casa em uma área prestes a valorizar para alugar. Considerando os juros cobrados pelos bancos brasileiros, essa ideia da “boa dívida” não é muito viável, mas é bom ensinar…

Nem toda dívida é ruim

O jogo prossegue e Lu é a primeira a chegar perto da casa final. Mas descobre que para chegar lá não basta apenas jogar os dados. É preciso dar algo em troca. Kiyosaki diz ser contra as mesadas dadas por dar, sem nada que ensine as crianças o valor daquele dinheiro. E sem lições de como ele pode ser usado para se transformar em um bem gerador de mais riquezas. O autor dá algumas sugestões para mudar isso – e não se trata de lavar a louça por dez reais. Ele sugere ensinar as crianças a trabalhar com um orçamento. Reúna os pequenos e diga algo como: “temos R$ 200 para fazer as compras da semana. Comida para a família e para o cachorro, produtos de limpeza, de higiene pessoal, etc.” Elas aprenderão rápido que não podem gastar tudo em pizza, chocolate e refrigerante, além do sanduíche daquela lanchonete, que está dando brinquedinhos da Patrulha Canina.

Fazer com que elas vejam como é feito um orçamento é infinitamente mais poderoso que dizer “não temos dinheiro para isso”. Se elas conseguirem descobrir como economizar para sobrar dinheiro para ir a lanchonete, ótimo. A criança mais velha pode ficar encarregada de descobrir as melhores ofertas nos supermercado da vizinhança ou pesquisar na internet maneiras de fazer produtos de limpeza durarem mais. A mais nova pode começar a aprender os conceitos de conta de água e luz e garantir que não haja desperdícios na casa, e assim por diante.

Criar uma criança que veja o dinheiro como um meio de ganhar mais dinheiro, e que esteja pronta para usar seus talentos nessa direção pode ser trabalhoso, mas o resultado será muito positivo daqui uns anos.

Você tem uma experiência positiva para compartilhar a respeito de como ensinar o real valor do dinheiro a crianças? Deixe um comentário. Você pode (e vai) inspirar outras pessoas.

Bons investimentos. E bons ensinamentos!

  • Ana Maria Albuquerque

    Quando morei em São Paulo em um bairro de judeus, confesso que era encantada com duas crianças judias que moravam no meu bloco. Eram irmãos, a menina tinha 6 anos e o menino 4 anos e eles ficavam depois da escola vendendo seus desenhos na porta do prédio para moradores ou pessoas que passavam na calçada, mas eles dentro do condomínio. Eles vendiam cada desenho por 50 centavos e aí eu perguntava para eles o que eles faziam com aquele dinheiro, ela dizia comprar chiclete, bala e chocolate e o menor dizia que ira gastar um parte com chocolate e a outra parte colocar no cofrinho. E me divertia, falando dos desenhos deles. Comentava coisas como: nossa mas este desenho está muito bonito – é uma obra de arte – vale muito mais que 50 centavos aí dava 2 reais. Até que uma vez dei 10 reais e o menino de 4 anos perguntou qual era o meu apartamento e se ele poderia marcar um dia e horário na semana para me mostrar uma coleção de desenhos com alguns feitos especialmente para mim. E passou a ir de vez em quando para a minha casa, todo bem vestido, de banho tomado me mostrando numa pasta de plástico a sua coleção e falando quais os desenhos ele achava mais especial ou que tinha feito especialmente para mim e eu sempre pagava um pouco a mais. Eu era encantada com esta criança e o tino dele para comerciante e lidar com as finanças desde cedo, provavelmente pela educação financeira recebida em casa. Abraços,

  • Alex F Pinheiro

    Muito interessante o artigo, eu comecei a trabalhar com 8 anos na loja do meu pai e tive que aprender a lidar com o dinheiro desde novo. Isso me desenvolveu uma mentalidade de usar o dinheiro de maneira mais consciente. Abraço.

  • Frederico Cunha Brito

    Muito bom o artigo. Com relação à sugestão do autor de “pegar dinheiro do banco a 6% de juro e emprestar esse dinheiro para alguém a 10%”, acho que deve ser realizada com cautela pois embora a prática seja comum no nosso país, emprestar a juros para pessoa física pode se configurar como prática de agiotagem e isso é crime no Brasil.